Experiências de um leitor, por Vladimir Nabokov

17/12/14   |   Postado em Artigos

Experiências de um leitor, por Vladimir Nabokov

Há cem anos Gustave Flaubert, numa carta à sua namorada, fez o seguinte comentário: “Como seríamos sábios se conhecêssemos bem apenas cinco ou seis livros”.

No ato da leitura é preciso perceber e apreciar cada detalhe. Não há nada errado com a generalização, quando acontece depois que as preciosas minúcias do livro foram carinhosamente coletadas. Se começamos a leitura com uma ideia preestabelecida então começamos pela extremidade errada e nos afastamos, cada vez mais, do livro, antes mesmo de entendê-lo.

Nada é mais desagradável ou injusto para com o autor do que começar a ler, por exemplo, Madame Bovary, com a noção preconcebida de que a história é uma denuncio contra a burguesia. Devemos sempre lembrar que o trabalho artístico é, invariavelmente, a criação de um novo mundo. Assim, a primeira coisa que deveríamos fazer seria estudar este novo mundo, o mais intimamente possível considerando-o como algo completamente novo, não tendo nenhuma ligação óbvia com os mundos que já conhecemos. Quando este novo mundo já foi intimamente estudado, então, e só então, vamos examinar suas ligações com outros mundos, com outros ramos do conhecimento.
Outra questão: podemos esperar obter informações sobre lugares e época ao lermos um romance? Pode alguém ser tão ingênuo a ponto de pensar que vai aprender alguma coisa sobre o passado, lendo aqueles grossos best-sellers que são espalhados por todos os cantos, pelos clubes de leitura, sob o título de novelas históricas? Mas, e as obras-primas? Podemos confiar na descrição de Jane Austen da Inglaterra dos grandes proprietários rurais, com baronetes e campos floridos, quando tudo que ela conhecia era o gabinete da casa de um clérigo? E Bleak House, aquele fantástico romance que se passa numa fantástica Londres? Certamente não. O mesmo acontece com outros livros deste tipo. A verdade é que grandes romances sempre são grandes contos de fadas e os romances deste tipo são contos de fadas notáveis.
O tempo e o espaço, as cores das estações, os movimentos dos músculos, as mudanças de pensamento, tudo isso, para os escritores geniais (tanto quanto podemos supor, — e acredito que estejamos certos) não são simples noções tradicionais que podem ser copiadas das bibliotecas ambulantes que contêm verdades notórias, mas uma série de raras surpresas únicas, que grandes artistas aprenderam a expressar de maneira própria e invulgar. Para autores menores sobra a ornamentação do lugar comum. Eles não se incomodam em reinventar o mundo; simplesmente tentam extrair o máximo de uma determinada ordem de coisas, de tradicionais padrões de ficção. As várias combinações que estes autores menores são capazes de produzir, dentro destes limites fixados, podem até ser bastante agradáveis, de forma suave e passageira, porque leitores menores gostam de reconhecer suas próprias idéias em agradáveis disfarces. Mas o verdadeiro escritor, aquele que faz planetas girarem e modela o homem adormecido e, avidamente, transforma sua costela, este tipo de autor não possui valores estabelecidos, à sua disposição, ele mesmo deve criá-los.
A arte de escrever é uma ocupação fútil, sobretudo se não implica uma visão do mundo como ficção em potencial. A substância deste mundo pode ser suficientemente real (até onde se pode considerar a realidade), mas não existe, em absoluto, como um todo incontestável: é o caos. E para este caos o autor diz: “Vai”, autorizando o mundo a chamejar e a fundir-se. Agora ele é recombinado até em seus átomos e não apenas em suas partes visíveis e superficiais. O escritor é o primeiro homem a traçar os caminhos e dar nomes aos objetos naturais que esse mundo contém. Aqueles grãos ali são férteis. Aquela fera que cruzou meu caminho pode ser domada. Aquele lago entre aquelas árvores será chamado Lake Opal ou, mais artisticamente, Dishwater Lake. Esta neblina é uma montanha e esta montanha deve ser conquistada. Por sobre uma rampa, sem pegadas, caminha o artista maior e, no topo, numa serra ondulada, quem vocês pensam que ele encontra? O leitor, ofegante e feliz, e lá eles, espontaneamente, se entram e se ligam para sempre, se o livro for daqueles que duram para sempre.
Incidentalmente, usa a palavra “leitor” de maneira muito vaga. Mas é curioso, não se pode ler um livro: podemos apenas relê-lo. Um bom leitor, o leitor maior, um leitor ativo e criativo é o releitor. E vou lhes dizer por quê. Quando se lê um livro, pela primeira vez, o laborioso processo de movimentar os olhos da esquerda para a direita, linha após linha, página após página, esse complicado trabalho físico sobre o livro, esse processo de captar, em termos de espaço e tempo, o assunto do livro, é uma barreira entre nós e a apreciação artística. Quando olhamos um quadro não temos de mover nossos olhos de maneira especial, mesmo se, como num livro, a pintura contém elementos de profundidade ou seguimento. O elemento tempo realmente não está presente num primeiro contato com a pintura. Na leitura de um livro devemos ter tempo para nos acostumarmos com ele. Com relação à leitura o corpo humano não dispõe de nenhum órgão capaz de, primeiro abranger o todo (como, no caso da pintura, os olhos sobre a tela) e, depois se fixar em cada um dos detalhes. Mas, numa segunda ou terceira, ou quarta leitura podemos, em certo sentido, nos comportar com o livro como fazemos com o quadro. Entretanto, não confundamos os olhos, estas obras-primas da evolução, com o pensamento, uma realização ainda mais fantástica. Um livro, não importa o que seja — um trabalho de ficção ou um trabalho científico (a linha divisória entre os dois não é tão clara como geralmente se pensa) — um livro de ficção apela, acima de tudo, à mente. A mente, o cérebro, o ponto mais sensível da espinha são, ou deveriam ser, os únicos instrumentos usados na leitura de um livro.
Sendo assim, poderíamos levantar a seguinte questão: como é que a mente funciona quando um leitor sombrio se depara com um livro ensolarado? Primeiro, aquele estado de espírito solene se desfaz e, para melhor ou para pior, o leitor aceita as regras do jogo. O esforço para começar a ler um livro, principalmente quando é elogiado por pessoas que o jovem leitor secretamente considera muito antiquadas ou muito sérias, é, na maioria das vezes, difícil de se realizar; mas, uma vez feito, as recompensas são várias e abundantes. Uma vez que o artista maior usou sua imaginação criando seu livro, é natural e justo que o consumidor deste livro use também sua imaginação.
Há, entretanto, pelo menos duas variáveis de imaginação no caso do leitor. Vamos ver então qual das duas é a correta para ser usada na leitura de um livro. Primeiro, há uma espécie de imaginação comparativamente inferior que se transforma em sustentáculo de emoções simples e é, definitivamente, de natureza pessoal. (Aqui, na primeira fase da leitura emocional, existem diversas variantes.) Uma situação do livro é intensamente sentida porque relembra algo que aconteceu a nós ou a alguém que conhecemos ou conhecíamos. Ou, ainda, o leitor considera o livro um tesouro principalmente porque evoca um país, uma paisagem, um modo de vida que ele, nostalgicamente, recorda como parte de seu próprio passado. Ou, também, e isto é a pior coisa que um leitor pode fazer, ele se identifica com uma personagem do livro. Esta variante inferior não é a espécie de imaginação que eu gostaria que os leitores usassem.
Então, qual é o autêntico instrumento a ser usado pelo leitor? É a imaginação impessoal e o prazer artístico. Penso que, o que deveria ser estabelecido é um equilíbrio artístico harmonioso entre o pensamento do leitor e o do autor. Deveríamos permanecer um pouco distantes e sentir prazer neste distanciamento, ao mesmo tempo, deveríamos apreciar intensamente, apaixonadamente, com lágrimas e arrepios, o secreto fascínio de uma obra-prima. Ser bastante objetivo nestes assuntos é, naturalmente, impossível. Tudo que vale a pena é, de alguma forma, subjetivo. Por exemplo, vocês sentados aí, podem ser simplesmente um sonho meu, e eu, certamente, o pesadelo de vocês. Mas o que quero dizer é que o leitor deve saber quando e onde frear sua imaginação. Isto ele consegue procurando ver claramente o mundo específico que o autor coloca à sua disposição. Devemos ver coisas e ouvir coisas, devemos visualizar as salas, as roupas e os gestos das personagens do autor. A cor dos olhos de Fanny Price em Mansfield Park e a mobília de seu quarto pequeno e frio são importantes.
Cada um tem temperamento diferente. E posso lhes dizer, agora mesmo: o melhor temperamento que um leitor pode ter ou desenvolver é a combinação do artístico com o científico. O artista entusiasta, quando só, tende a ser subjetivo demais na sua atitude em relação ao livro, e assim a frieza de julgamento científico vai moderar esse ardor intuitivo. Se, entretanto, um pretenso leitor é completamente destituído de paixão e paciência — uma paixão de artista e uma paciência de cientista — dificilmente apreciará a literatura maior.
A literatura não nasceu no dia em que um menino gritando: “Olha o lobo, olha o lobo” saiu correndo do vale de Neanderthal com um lobo cinzento e grande em seus calcanhares. A literatura nasceu no dia em que um menino veio gritando: “Olha o lobo, olha o lobo” e não havia nenhum lobo atrás dele. (Que o pobre menino tenha sido devorado por uma fera de verdade, por ter mentido tantas vezes, é apenas um incidente.) Mas, aqui está o que é importante. Entre o lobo do vale e o lobo da história existe algo flamejando. Este algo, este prisma, é a arte da literatura.
Literatura é invenção. Ficção é ficção. Chamar uma história de verdadeira é um insulto, tanto para a arte, como para a verdade. Todo grande escritor é um grande enganador. Mas assim é também a Natureza, esta arqui-impostora. A Natureza sempre engana. Desde a simples armadilha da procriação, até a prodigiosa e sofisticada ilusão das cores de pássaros e borboletas, que são passam de camuflagem protetoras. Existe na Natureza um sistema maravilhoso de magias e astúcias. O escritor de ficção, apenas segue o exemplo da Natureza.
Voltando, por um momento, ao nosso confuso menininho do vale, que gritava “olha o lobo”, podemos colocar as coisas assim: a magia da arte estava na sombra do lobo que ele deliberadamente inventou, no seu sonho sobre o lobo; depois disso o relato de suas traquinagens deu uma boa história. Quando afinal ele morreu, a história contada sobre ele adquiriu o significado de uma boa lição, daquelas que se contam ao redor de uma fogueira de acampamento. Mas, ele era o pequeno mágico. Ele era o inventor.
Um escritor pode ser considerado sob três pontos de vista: como um contador de histórias, como um professor e como um mágico. O escritor maior reúne estes três — o contador de histórias, o professor e o mágico. Mas é o mágico que existe nele, que predomina e faz dele um escritor maior.
Para o contador de histórias, nos voltamos em busca de entretenimento, de excitação mental do tipo mais simples, de participação emocional, do prazer de viajar por uma região remota no tempo ou no espaço. Um intelecto um pouquinho diferente, embora não necessariamente superior, procura no escritor o professor. Propagandista, moralista, profeta — esta é a seqüencia crescente. Podemos procurar o professor não apenas pela educação moral, mas também pelo conhecimento direto, pela busca de simples fatos. Ai de mim, já conheci pessoas cujo propósito, ao lerem romancistas franceses e russos, era aprender algo sobre a vida na “alegre Parrí” ou na “tristonha Rússia”. Enfim, e sobretudo, um grande escritor é sempre um grande mágico. E é aqui que chegamos à parte verdadeiramente fascinante, quando tentamos captar a magia individual da genialidade do autor, estudar seu estilo, suas fantasias, a forma de seus romances ou de seus poemas. As três facetas de um grande escritor — magia, história, ensinamento — tendem a se fundir numa única expressão de raro esplendor, desde que a magia da arte esteja presente na medula da história, na verdadeira essência do pensamento. Existem obras-primas cuja objetividade, clareza e organização do pensamento provocam em nós um profundo prazer artístico quase tão forte quanto o sentido num romance como Mansfield Park, ou como em qualquer rica explosão de metáforas sensuais de Dickens. Parece-me que uma boa fórmula para testar a qualidade de um romance é, durante a leitura, examinar a precisão da poesia, a intuição da ciência. Para conseguir penetrar nesta magia, o leitor inteligente lê o livro de um gênio não com o coração, nem tanto com o cérebro, mas com sua espinha — a sede do prazer artístico. É aí que ocorre o tão famoso “arrepio”. Mesmo assim, devemos nos manter um pouco distantes, um pouco afastados, quando lemos. Então, com um prazer que é tanto sensual, quanto intelectual, devemos observar o artista construindo o seu castelo de cartas e a transformação deste castelo numa bela construção de aço e vidro.

Tradução de Anna Maria Terra Magalhães, publicada originalmente no volume 5 da revista Oitenta, publicada no Inverno de 1981 pela L&PM Editores Ltda.