Entrevista com o autor Filipe Chamy

13/06/16   |   Postado em Artigos Lançamento

Entrevista com o autor Filipe Chamy

C.K.: Chamy, quem é você, o que você faz aqui, e por qual razão devemos continuar com esta entrevista?

 

Sou alguém que acha que tem algo a dizer, e como vocês não estão bem certos de quem sou e, portanto, não sabem se sou mentiroso ou mitômano, vale a pena arriscar para ver se a ameaça é verdadeira. Estou aqui para falar do livro que lançarei com a Nanquim em algumas semanas, e quem sabe despertar o interesse de quem ainda não sabe desse projeto.

 

C.K.: Vamos arriscar, então. Estás lançando um livro... Ok. E devemos arriscar nele também, correto? Nos dê então uma prévia para o teu livro. Do que fala? Como é? Qual é a chave secreta para a sua compreensão?

 

Sim, o risco é uma decisão importante. Com autores já estabelecidos, há no máximo vontade, talvez alguma curiosidade, mas dificilmente risco. Risco é a marca das novidades, do que nunca houve. É preciso dar espaço para as novas coisas surgirem, e a única maneira é essa, arriscando.

 

É um livro de surpresas, sobretudo de linguagem. Ele parece estruturado em contrastes: sem diálogos, mas com gente falando o tempo todo; sem certezas, pois a sensação é a mais forte emoção; sem destino definido, porque é a viagem que importa.

 

A chave para o livro é deixar tudo fluir. As personagens irem se construindo e (a)firmando, a trama planificar sua proposta de criação de ambiente, sugerir caminhos. É uma história costurada, como um monte de retalhos que, juntos, fazem a unidade consciente de um cobertor. Em essência, uma viagem de navio cujo percurso é irrelevante, a investigação de um crime não cometido e pessoas que orbitam ao redor de um protagonista que dorme quase o livro todo.

 

Talvez precise ser olhado de certa perspectiva. É preciso ser ativo também: o leitor deve ser generoso com as personagens e entender como elas se movimentam.

 

C.K.: Encontramos neste livro uma sombra clara de suas influencias na literatura? Quais são elas?

 

As duas maiores influências para o livro são Fernando Sabino e Gabriel García Márquez, ou mais especificamente "O grande mentecapto" e "O amor nos tempos do cólera"; do primeiro, o abraço sem pudores à anedota, à irreverência e ao cômico, o exagerado, estapafúrdio, mas ele próprio resultado de uma tradição que vai pelo menos desde Cervantes a "Macunaíma"; do segundo, os parágrafos muito extensos, o gosto pelo discurso indireto (para mim, uma das principais marcas do romance contemporâneo), o apego pela descrição dos estados morais das personagens, seguindo-as de perto, adentrando fundo seus interiores mas sem tentar ser arrogantemente psicanalítico.

 

Mas, explícita ou disfarçadamente, tem todo um amálgama de influências misturadas no texto. Procurei não fugir delas, mas dar ao todo uma voz bastante distinta. Tenho horror à simples colação de referências. E me encanta constatar que já apontaram no livro traços de autores que sequer li! Coincidência ou influência indireta?

 

C.K.: O que te direcionou para esta pista de vocação para contar histórias?

 

O Fernando Sabino, que achava tremendamente difícil escrever e era um grande escritor, comentou que ele não escolheu essa profissão, ele foi chamado: é a vocação. Eu acredito muito nessa ideia de chamamento, uma força irresistível. Eu não sei se escrevo bem sempre; mas eu sei que sempre escrevo, preciso escrever, essa é a forma que eu tenho para me comunicar. Alguns desenham, outros cantam, outros fazem pratos, eu escrevo. Não consigo me desvincular disso, não há condição de me ausentar disso, pois é um chamado, uma vocação. De novo a humildade: ter a vocação não significa desempenhar bem a atividade. Isso está além do meu julgamento.

 

Quando eu escrevo uma história, é minha forma de me exprimir. É o que eu gostaria de ler se fosse leitor, algo diferente do que já vi. A possibilidade de manusear a linguagem e expressar-me com meios criativos via texto escrito torna a vocação uma constante reinvenção, um treino em que busco me aperfeiçoar, não um fardo obrigacional, espécie de maldição que devo cumprir.

 

C.K.: A editora em que estás lançando o livro tem por ideia publicar textos clássicos, e novos autores que um dia serão clássicos. Como você se percebe perante esta proposta?

 

Com medo! Mas confiante de que fiz o meu melhor, e que não vendo gato por lebre: é lebre mesmo. Insana, tomando chá perpetuamente, sem falar coisa com coisa, mas lebre.

 

O grande problema das apostas são os agentes externos. Independentemente da minha competência literária e da extrema boa vontade da Nanquim, o público, o alcance da divulgação, a conjuntura econômica, tudo isso foge do controle. Então é um consolo saber que estamos fazendo o melhor possível. E eu gosto sobremaneira da ideia de misturar clássicos e neófitos, pois literatura não é fama, literatura é palavra. Não colocar estreantes num gueto, como faz a maior parte das editoras célebres, é um pequeno gigante passo: irmanando num mesmo selo propostas literárias diversas, o único critério para distingui-las é a qualidade literária das obras.

 

Voltamos a pensar no risco, e na importância de arriscar. Este é o momento.

 

C.K.: Como você define um clássico? E como você sente o cenário onde se desenrola a literatura contemporânea? Existe continuidade?

 

Um clássico é tudo aquilo que merece e instiga revisitas ao longo das eras, e com isso possibilita novas análises, visões e entendimentos. Não interessa se mudam os costumes, as línguas e os países, os clássicos continuam nos dizendo mais sobre nós mesmos do que a maior parte das informações para consumo imediato com que nos servem de instante em instante.

Há certa continuidade no sentido de que hoje é a época em que mais temos acesso a praticamente tudo que foi preservado em literatura. Todas as tradições, em várias versões, ou os fragmentos que restam, os estudos atrelados, as traduções, as obras completas... Não há impedimento a esse acesso e os autores de hoje não precisam de alguém a lhes falar o que sorver, eles procuram por si e dialogam com o que lhes toca a sensibilidade em algum nível. Naturalmente cada escritor seguirá o caminho que imagina mais justo na sua carreira, e é essa herança que ele continuará semeando.

Ao mesmo tempo, a descontinuidade se dá nesse grau sincrônico: várias tendências se mostrando e combatendo, porque não há mais uma linha única a se seguir, dogmas imutáveis do que pode ou deve ser lido ou qualquer coisa do tipo. Hoje somos mais livres para pensar em outras vozes, que imagináramos outrora mudas.

 

C.K.: Você se mostra otimista. Nos dê um pouco de pessimismo para apimentar a entrevista.

 

O mercado para livros no Brasil é terrível! Com um autor estreante, um livro sem polêmicas externas, de tiragem bastante modesta, numa editora nova, os grandes jornais se recusando a dar espaço, as chances de sucesso são bastante questionáveis... Bolas, agora quem precisa de otimismo sou eu!

 

C.K.: Outra coisa que você demonstra é um seno de humor. Podemos esperar algumas risadas durante a leitura de Amores, estertores?

 

Com certeza! Eu sempre tinha o problema de ser muito sério literariamente, mas nesse livro eu abracei meu espírito pícaro. É difícil para um escritor escrever com humor, o menosprezo é a reação intuitiva de quem esbarra com o risível, mas eu acho a leveza uma virtude admirável e vastamente saborosa, e penso que a história de João Cristiano tem alguns momentos de delírio histriônico que estão entre os pontos altos da história.

 

C.K.: Estes outros textos mais sérios, serão lançados algum dia? E outros livros estão sendo planejados neste momento?

 

Se eu for bem sucedido, e tudo depende desse primeiro e definitivo teste, por que não? Tenho por exemplo contos bastante perturbadores sobre estados de ânimo deteriorados, sobre a velhice, sobre a solidão. Na verdade, tudo isso está em "Amores, estertores", mas diluído entre mil outras tintas. Meu primeiro romance, inédito, é protagonizado por uma adolescente em crise (como o são todos os adolescentes) e tem um tom de desencaixe que ainda me incomoda quando pego para reler. Gostaria de publicá-lo, com o devido aviso mariodeandradeano de 'obra imatura'. E tenho críticas e ensaios totalmente sérios também.

Estou trabalhando em uma história nova faz alguns meses, em que quero modificar alguns experimentos já feitos e realizar outros que a mim ainda são desafiadoramente inalcançáveis. O futuro desse projeto ainda é incerto, e confesso aqui outro enorme desânimo: não saber se conseguirei publicar mais livros me deixa pouco incentivado para trabalhar neles. Mas vocação não se discute, mesmo quando se duvida dela.

 

C.K.: Para encerrar, vamos fazer um exercício de imaginação. Qual seria o teu bande à part literário ideal se você pudesse ser colega de letras de escritores de épocas passadas? E quais seriam, semelhantemente, os teus inimigos mortais. Valem filósofos, teóricos, romancistas, poetas, místicos, profetas... o que a tua vontade mandar!

 

Gostaria de conviver com Mário de Andrade e todos os poetas, críticos e ficcionistas que ele conseguia juntar em suas reuniões, os cronistas e letristas da geração do Rubem Braga e imediatamente posteriores, os poetas da era augustana de Roma (Virgílio, Horácio, Propércio, Ovídio, Catulo e companhia), os prosadores imaginativos do realismo mágico, Jorge Luis Borges e sua bibliofilia fascinante, os "rústicos" Guimarães Rosa e Erico Veríssimo e gente engraçada como René Goscinny, Groucho Marx e Mark Twain; imediatamente ao lado nesse insólito sarau, narrando tudo em versos rimados nonsense, Lewis Carroll!

Inimigos? Como disse Antígone, "não nasci para o ódio, só para o amor". Mas não deixaria entrar gente desonesta intelectualmente, ou gente muito agressiva, pedante e grosseira. Os demais estariam todos convidados e habilitados para dar seus pitacos e comer os canapés.